Textos para pacientes

“A fisioterapia brasileira não pode ser de camelô”

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Confira a entrevista concedida por Philippe Souchard ao jornal “A Tarde”.

philippe souchard-entrevista“Cuidado com a quinta lombar, hein? Mas, qualquer coisa, eu posso consertar”, brinca Philippe Souchard enquanto dirige por uma estrada esburacada que leva a seu paraíso particular na Bahia. Ele pede que nós não revelemos o local. “É o único lugar onde eu ainda tenho sossego…”. Fisioterapeuta francês, Souchard criou, há 35 anos, a Reeducação Postural Global, mais conhecida como RPG, um método que promete libertar de modo permanente aqueles que sofrem de dores na coluna.  Para divulgar a prática e aumentar o exército de mais de 22 mil rpgistas, ele viaja constantemente com a mulher, a fisioterapeuta carioca Sonia Pardellas, ministrando cursos em dez países. Para a Bahia, vem descansar nas festas de fim de ano, mas não consegue ficar muito tempo parado. Com a relativa folga de suas atividades costumeiras, aproveita para escrever seus livros. Por sua conta, já são 17. O último deles, Deformações Morfológicas da Coluna Vertebral, foi lançado no final de 2015 na França e deve ser publicado no Brasil depois do Carnaval. No país, há dois institutos que levam seu nome, no Rio de Janeiro e em São Paulo, e ele se prepara para iniciar cursos em Salvador (as aulas começam em março e vão até dezembro). Em entrevista a Muito, Souchard fala sobre a evolução do método, a prática de atividades físicas e a “pirataria” que ronda a RPG.

 

Como a RPG evoluiu ao longo dessas três décadas de criação?
Os dez primeiros anos foram difíceis, porque passei a trabalhar de um modo diverso dos outros. Descobri que os músculos são fracos porque são encurtados. É complicado mudar os paradigmas nas profissões, especialmente as médicas. Hoje já temos mais de 70 pesquisas científicas que comprovam os resultados da RPG. Agora parece que todo mundo está dizendo que está certo [ri]. Evidentemente, precisamos de um volume muscular, mas precisamos também de músculos com flexibilidade. O músculo é um elástico vivo. Se perde a flexibilidade, perde a força. A grande frase em RPG é que um músculo rígido é um músculo fraco. Nós temos cursos em 18 países, vários livros publicados (já perdi a contabilidade…). Acho que são 17. A cada quatro anos, fazemos um congresso internacional. Este ano será em Madri, na Espanha, onde temos uma cátedra na Universidade Rei Juan Carlos. Temos também um curso de mestrado na Universidade Tor Vergata, em Roma, então é um método em expansão. Aqui no Brasil, apesar da crise, temos cursos em vários estados, e também em Salvador. O próximo será em maio.

 

Mas a prática em si mudou muito?
Ah, sim, ainda bem! Eu estou sempre trabalhando. O futuro livro já saiu na França e vai sair no Brasil e em Portugal depois do Carnaval. Mas é a mesma coisa em todas as profissões: ou você cresce, ou desce.  Fomos tratando cada vez mais patologias variadas. No início, o RPG foi mais conhecido pelas correções morfológicas, a postura. Porque um músculo encurtado vai deformar o corpo na direção do seu encurtamento. Tivemos resultados posturais bem importantes. A praga moderna é dor da coluna vertebral. Sabemos agora que 80% das dores vêm de problemas de postura, de problemas de repetições profissionais. É difícil ser pedreiro ou garimpeiro, mas trabalhar no computador também é, porque você está sentado com a região lombar completamente enrolada, tem a cabeça para frente, então acaba com dor no nível lombar, dor na nuca… A grande vantagem da RPG é que tratamos as lesões articulares, todas as dores, mas também modificamos a causa deste problema. O nosso orgulho é modificar a postura das pessoas de modo que vá ficar. Isso, evidentemente, é gratificante do modo estético, vai liberar todos os movimentos, mas também vai livrar das dores.

 

Em que medida os resultados da RPG permanecem quando acabam as sessões? Afinal, as pessoas, de algum modo, voltam para essa mesma rotina de trabalhar muito tempo sentadas na frente do computador… 
As pessoas estão buscando tratamentos mais eficazes, mais rápidos, mais econômicos e os que vão durar mais. Por isso, apesar da crise, as pessoas estão sempre procurando RPG de verdade, porque, infelizmente, tem coisas que se dizem RPG e não têm nada a ver… A pirataria é uma disciplina olímpica no Brasil [risos]. Mas os rpgistas de verdade não estão sofrendo da crise. Temos dois institutos no Brasil, um em São Paulo e outro no Rio de Janeiro, e os consultórios vivem lotados. Os fisioterapeutas que fazem nossos cursos estão buscando aprimorar suas capacidades, mas também estão precisando de uma melhor rentabilidade. Veja, um encanador ganha mais do que um fisioterapeuta com convênios! É melhor virar encanador! E fisioterapeutas estudam cinco anos em uma faculdade. Encanador é uma profissão de respeito, por favor. Mas… Não poder viver de modo decente depois de cinco anos na faculdade? Com convênios, paga-se R$ 20,00, R$ 40,00 a sessão… O mais importante é o retorno positivo dos pacientes, que vão te abraçar e dizer: ‘você me salvou’, ‘você é um grande profissional’, mas também fazer viver a família, por favor…

 

Mas como esses resultados da RPG se mantêm, na prática?

Como estamos mudando a postura, temos uma garantia em relação ao futuro. Além disso, temos autoposturas para manter frequentemente, uma vez por semana, do mesmo modo que se vai para a academia (para se arruinar…). Bom, as autoposturas são como uma manutenção, podem ser feitas em grupo. Para não fazer confusão com a RPG, que é terapêutica, individual, coloquei outro nome. Chamo de Stretching Global Activo. As pessoas gostam! Mas a RPG tem o poder de compensar até as coisas que são ruins da posição sentada, da profissão. Temos capacidade de evitar recaídas. Mas, agora, temos a prevenção e a manutenção. É uma cobertura total da necessidade das pessoas.

 

O senhor costuma dizer que essa ideia de “fortalecer a musculatura” é contrária à RPG. Queria que o senhor falasse mais sobre isso, já que hoje muita gente tem uma rotina intensa de treinamento físico.
Bom, vocês são o país do futebol. Não se pode jogar futebol com pernas de garça. Então, evidentemente, um preparador físico vai fazer musculação. É o papel dele. E musculação bem feita, em função da adaptação para a atividade. Vão chegar os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. Um atleta que vá correr 10 mil metros é magrinho. Já um jogador de rugby é fortão. Então é uma necessidade. Não tem briga nenhuma. Um preparador físico precisa adaptar o volume muscular para a atividade. Só que, quando se faz musculação, vai encurtar, então o que pedimos é que cada vez que se faça uma hora de musculação, tem que fazer uma hora de Stretching Global Activo, ou tem que fazer uma hora de RPG, se o atleta estiver machucado, entendeu? Tudo é bipolarizado na vida. Tem dia, tem noite, tem inverno e tem verão, então tem a musculação e tem a flexibilidade. Temos que compensar a musculação de modo obrigatório com a flexibilização, tem que esticar, senão essa história vai acabar mal.  Quando eu falava de dor na nuca, vi que você balançou a cabeça. Te pergunto: quando você sente essa dor, é como se a musculatura estivesse fraca ou completamente travada?

 

Travada.
Sim, você se sente fraca por causa da travação!  Então, o que é um rpgista? É um destravador. Brinco com meus alunos na despedida dos cursos: agora vocês são destravadores profissionais. Vamos retomar a bipolaridade… Um anoréxico é fraco, mas um obeso também é fraco, entendeu? Não tem lugar para brigas, tem lugar para pensar as coisas com inteligência. Tem que ter equilíbrio, especialmente, no mundo particular do esporte, com pessoas que vivem disso. Nós fazemos um trabalho com a seleção de vôlei brasileira, especialmente, a feminina. Todas fazem um trabalho com RPG e também fazem Stretching Global Activo. Eu não vou dizer que foram campeãs por causa da RPG, mas a RPG deu ao treinador a possibilidade de escolher quem ele queria, porque aqueles corpos estavam todos disponíveis. Aqui no Brasil, não se sabe fazer bem a diferença entre tratamentos e exercícios físicos. Tem coisas que são para a academia  – é bom para a circulação, para a respiração, para ficar elegante, tudo bem – só que não pode confundir isso com um tratamento de fisioterapia, que é um paciente por vez. E agora tem fisiogym, fisionatação, fisioaeróbica, fisioguziguzi… O que é isso? Somos fisioterapeutas! Imagine cinco anos para fazer fisioterapia e depois vai fazer coisas de uma profissão que não é a nossa? E que nem fazemos bem! Temos que respeitar os professores de ginástica.

 

Como a RPG atua para além das dores de coluna e correção postural?
Bom, vamos falar das doenças respiratórias. Um asmático também é completamente travado. De novo, um músculo rígido é um músculo fraco. É como um fole, em realidade. Se o fole não se fechar bem, depois quando se abre, não se abre bem, porque já está aberto. A respiração é um intercâmbio de ar, então temos que inspirar muito, mas também expirar muito. Se estamos com o fole aberto, porque os músculos são rígidos, temos um tórax assim [infla o peito]. Para brincar com os alunos, digo que é um tórax com uma inspiração de um beija-flor asmático. Parece um tórax de atleta, mas não pode baixar… Se não pode baixar, não pode manter as trocas entre o ar viciado e o ar novo que tem que entrar. Isso tudo é biológico. Um jovem de 20 anos tem mais possibilidades com o corpo que uma pessoa de 80. Só que hoje temos pessoas de 25 anos que tem unidade corporal de 80. É aqui o problema. O mundo moderno é muito cruel.  Sabemos cientificamente agora que esses gestos repetitivos, como esses de mexer no celular, associados à má postura, são as coisas que vão criar mais patologias articulares. Hoje em dia, temos formações avançadas em diversas áreas, até em correções motores oculares, porque há uma correlação evidente entre a contração dos músculos internos na frente das telas e as patologias locais.

 

O senhor falava da questão da “pirataria” na RPG, referindo-se a casos de instrutores não credenciados… Como o senhor enfrenta esse problema?
Infelizmente, é um tiro no pé que se dá à própria profissão. Percebo que quando uma coisa é badalada, as pessoas são chamadas a esta coisa.  Mas temos que pensar: por que é badalada? Porque tem resultados! Como alguém pode pensar que com um curso de uma, duas semanas, vai aprender a tratar os pacientes? O meu curso são cinco semanas, e eu sou o criador do método! Não estou vaidoso disso, mas há uma garantia. Estou sempre presente nos cursos. E, no restante do tempo, estão os meus colaboradores, que trabalham comigo há 30 anos. Com a pirataria aparecem coisas que não têm nada a ver com RPG. Coisas alucinantes! Durante os cursos, a gente recebe pacientes, e alguns deles chegam dizendo que já fizeram RPG. Aí pergunto como foi. “Ah, foi na piscina!” [faz cara de espanto]. Ou então: “Ah, tinha bola… Por que você não usa bola?” Entendeu? O que é isso? Peço que os pacientes que quiserem fazer RPG procurem um profissional credenciado [a lista está no site sbrpg.com.br]. Essa é a RPG de verdade. Tivemos que criar isso [aponta para a logomarca da RPG com seu sobrenome]. Eu não gosto, não sou megalomaníaco, mas foi necessário. Quem faz esse curso pirata sai decepcionado, porque não sabe trabalhar, e depois a cascata é cruel, porque na realidade é o paciente que vai ficar decepcionado depois. A fisioterapia brasileira merecer outra coisa que a pirataria. Não pode ser uma fisioterapia de camelô. Sejam orgulhosos de ser fisioterapeutas.

 

Como é sua rotina hoje em dia? Como você consegue dar aula em todos esses 18 países?
Estou presente em 10 países. Em alguns casos, como na América Latina (Chile, Paraguai, Peru, Equador), meus colaboradores dão as aulas e na última semana, que é a minha semana, aí conseguimos agrupá-los em Buenos Aires. Com isso, consigo economizar tempo. Eu brinco dizendo que moro nos aeroportos [ri]. Mas temos uma casa no povoado de Saint Mont, na França, que tem 370 habitantes. A gente vive numa casa de 300 anos, com aqueles paredões de pedra. Fazemos o transatlântico duas vezes por ano. Estamos tentando organizar o calendário para fazer apenas uma vez ao ano, mas é meio complicado [ri]. Só aqui no Brasil, temos Cuiabá, Curitiba, Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Fortaleza. Aqui [na Bahia], parece que estamos de férias, mas não! Fico escrevendo os livros, resolvendo problemas… quando vejo, estamos eu e Sônia trabalhando 10 horas por dia!

 

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